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Última actualización:
Xeral: 23-05-2013 11:48

Dioivo na rede

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Aldeias de fronteira

Vou à minha aldeia, respirar ar puro e paz. Ouvir os pássaros de dia e as cigarras à noite. Ver as estrelas, esse luxo não permitido aos citadinos. Passear por ruas poeirentas, dizer bom-dia a quem não conheço. Estar num  sítio onde não há supermercados, só hortas. Viver uns dias rodeada de um silêncio que nem os muitos emigrantes de volta à terrinha perturbam. Relembrar brincadeiras de pequena: mergulhar no rio lamacento, onde cobras fininhas nos roçavam as pernas, andar de burro e de carroça, enfrentar os cães vadios, descobrir esconderijos. Revisitar o cruzeiro, agora só com a vista, dantes subindo monte acima, entre enormes pedregulhos e arbustos de agulhas.

Do cruzeiro vê-se Espanha, à esquerda. E o Castelo, com a sua monumental torre de menagem, à direita. Um desses lugares marcados pela convivência turbulenta com o país vizinho, foi vila de defesa do território português contra o seu eterno inimigo, a quem costumamos chamar “nuestros hermanos”, apodo irónico, bem vistas as coisas, senão fratricida. E é lá que fazemos as compras: claro que não gostamos tanto do pão, nem do azeite do lado de lá, mas o chouriço e as “galletas” são tradição -  coisas que se vão inculcando nas gentes fronteiriças. Antigamente, trazia-se mercadorias “a salto”, ou seja, clandestinamente, sem passar pelo posto da vetusta e néscia Guarda Nacional Republicana. Montavam um burrico ou endureciam as canelas e lá iam irmãos e primos à aventura, fazer um simples recado de mercearia. Se vinham sem levar umas pauladas dos guardas já era uma sorte!

Terra de lavradores e pastores, chegou a sede de concelho. Hoje restam 120 habitantes, que não ocupam as fileiras de casas antigas, de pedra, derrubadas pelo tempo e pelos ladrões. Diz-se pelas bandas que os espanhóis vão aos montes portugueses roubar pedras, que naquela zona são verdadeiros colossos esculpidos pelo vento. Os locais encarregam-se de roubar a dos edifícios, mesmo de pérolas arquitectónicas da região. 

Vou à minha aldeia, Vilar Maior, mas podia ser a aldeia de qualquer português. Não se vai para descansar, mas para ser amolecido pelo tempo, pela mesa farta, pelas mãos toscas do parente afastado que abraça e beija sem cerimónia, pelo fresco da brisa, pelas histórias de família. Prometo trazer uma ou duas de volta. Até lá! 

 

FOTO: www.portugalnotavel.com

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