Baba de caracol
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- Categoría: Desde Portugal
- Publicado o Xoves, 15 Marzo 2012 10:33
- Escrito por Filipa Fava
Ando estupefacta com um creme prodigioso que anunciam incessantemente em diversos canais de televisão, nacionais e internacionais, e cujas propriedades milagrosas se baseiam nas qualidades sobrenaturais da baba de caracol, no foro dermatológico. Os resultados são imediatos e cura tudo: manchas do sol, cicatrizes da vida, marcas variadas, a flacidez inevitável, as rugas da felicidade, as imperfeições da tristeza, a velhice indesejada.
Feita alguma pesquisa, efectivamente, a baba de caracol parece ter alguma credibilidade, junto de alguma comunidade científica, que fez alguns estudos sobre a matéria. Note-se, porém, que estes mesmos cientistas alertam para o facto de que servem apenas determinadas espécies de caracóis e, sobretudo, só em circunstâncias muito precisas de extracção, esta baba parece ter algum efeito sobre o pungente drama da pele humana que se desfeia ao longo dos anos. É que a baba não pode ser aquela que é empregada pelo molusco para o deslizamento normal e corrente do dia-a-dia, não! Tem de ser necessariamente aquela outra baba que este gastrópode produz sob condições de stress extremo. Ou seja, há que torturar o bicho para conseguirmos remover eficazmente vincos, nódoas e sinais do tempo.
Ajudado pelo tom de voz de homem-de-feira-que-enaltece-o-espectacular- brinde-aos-três-tiros-certeiros, o anúncio televisivo lembra-nos uma outra figura: o arcaico caixeiro-viajante, vendedor ambulante do antigamente, verdadeiro charlatão que vendia a tão afamada banha da cobra. Minha vetusta avó ainda se lembra da carroça que trazia tal indivíduo, parando no meio da praça, o bigode farfalhudo a apregoar eloquentemente essa pomada formidável que sarava todos os males possíveis e imaginários. Não raras vezes, indivíduo e carroça arrancavam esbaforidos, perseguidos por sacholas e machadinhas de enfurecidos aldeães que comprovavam o creme e chegavam a conclusões diferentes.
Ora, esta cronologia de eventos leva-nos a pensar que, realmente, não melhorámos nada com o decorrer histórico. Não é por termos todos licenciaturas e mestrados, por termos bibliotecas e computadores ligados à internet, por contabilizarmos PIB e taxas de desemprego, por termos à disposição um inaudito aparato tecnológico científico/industrial/médico, por possuirmos telemóveis de última geração e automóveis de curta duração – que, na verdade, somos mais cabais no nosso raciocínio, mais justos nas nossas atitudes, mais hábeis no social ou mais sábios nas nossas decisões. Não deixámos, nem deixaremos, de facto, de acreditar em propriedades miraculosas e produtos benfazejos, desses que, mistérios inescrutáveis!, guarecem tudo do físico e ainda dão uma mãozinha ao espírito.
Por isso mesmo, julgo eu, não saímos da cepa torta e continuamos a eleger como regentes essa horda que nos estrangula com um modelo democrático que não é mais que um pasto para a ceva e engorda dos senhores do feudo. E, claro está, em prol do servilismo e submissão, estes mesmos senhores reduzem, década após década, índices de educação, cultura e participação democrática, exactamente aqueles que poderiam minimizar esta natural tendência humana à nescidade e ao sobrenatural. É a chamada pescadinha de rabo na boca! E que gostosa é!
Por outro lado, pergunto-me: se o dito unguento de baba de caracol levasse a coisa um pouco mais além e afirmasse que, pelo uso repetido ao extremo e durante todo o período de nossas vidas, não só se adquire (e cito) “uma pele nova”, mas se consegue tratar toda e qualquer maleita, enganando a mesmíssima morte - o populacho despertaria?



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