Desde Portugal
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- Categoría: Desde Portugal
- Publicado o Luns, 27 Febreiro 2012 17:44
- Escrito por Filipa Fava
Dioivo convidou-me a escrever uma crónica quinzenal variada, actual, correcta ou nem tanto, sempre insurgente e certamente representativa de uma minoria do meu país: Portugal.
Este nosso Portugal (suspiro)...! Aquele que um tal General Galba, um dos primeiros governadores romanos na Ibéria, teria apelidado de “povo muito estranho que não se governa nem se deixa governar”. Frase aplicada aos Lusitanos e também atribuída ao próprio Júlio César, é um elogio, bem vistas as coisas. Sobretudo desde a perspectiva presente, em que não nos governamos, por um lado, e nos deixamos definitivamente desgovernar por todos os outros, agradando a gregos e troikanos.
Se precisássemos de definir esta nação, cenário dos textos que submeterei a este prelo digital e que se costumou metaforizar por cá como jardim à beira-mar plantado, não enveredaríamos com certeza pelo jardim. Primeiro, pela imediata recordação do cacique que tem sequestrado o arquipélago da Madeira há mais de 33 anos (Alberto João Jardim, cujo homólogo no universo galego se poderia considerar o falecido Manuel Fraga Iribarne, para terem uma ideia do animal político). Depois porque, pelo território continental, vira o disco e toca o mesmo! Este jardim é, na verdade, um povo de brandos costumes (outro lugar-comum aqui da terra, este com âncoras literárias), ou seja, uma carneirada impotente, ignorante de facto ou analfabeta funcional, apolítica no pior sentido, herdeira da ditadura e assimilada cultural ao capitalismo. Nada de novo. E, finalmente, porque qualquer outra expressão disfórica retrataria de forma muitíssimo mais vívida e panfletária o nosso cantinho rectangular, algo assim como país do puxa os cordelinhos, dos chicos-espertos ou da culpa que morreu solteira – ditos para exprimir o nosso vasto saber em aldrabar, contornar o sistema, corromper, vigarizar e safar-se de forma airosa, lucrando qualquer coisinha pelo meio.
Não! Desenganem-se, o meu país não é esse! Bato o pé e recuso-me! O meu país continua a ser o das gentes educadas, que dizem bom dia a estranhos, com licença e obrigado; o dos militares que fazem revoluções pacíficas com flores; o do dá-se um pontapé numa pedra e sai um poeta; o do sol e vinho verde acompanhado das maiores ondas do mundo; o da mestiçagem do conquistador pelo conquistado; o das longas noites de trabalho no campo ao som de riquíssimas polifonias tradicionais; o de mulheres como Catarina Eufémia; o da hospitalidade curiosa e multilingue; o dos sobreiros e azinheiras no fundo amarelo de uma seara de trigo...
Pois é. É que não nos escapamos, como nenhum outro povo, ao reverso da medalha, às duas caras da mesma moeda, à face oculta da Lua... E, portanto, em tom inicial, deixamos aqui um único pedido aos possíveis e estóicos leitores desta humilde coluna: não nos sentenciem pelas impressões que possam ter de um fim-de-semana nas nossas terras, das barbaridades que os nossos políticos proferem diariamente, da cena cultural cosmopolita que povoa os nossos teatros ou de alguma formalidade no trato pessoal. Nem mesmo se deixem levar pelo que se diz nestas linhas. Julguem-nos sempre pelo inverso (ou diverso) do que, em dado momento, possa conformar a vossa opinião.
Só assim teremos alguma possibilidade de nos olharmos com verdade fraterna e de que chova, a bom chover, dos dois lados do rio Minho, que aqui a seca também lastra, recebendo de braços abertos pelas ruas, qual cabo-verdianos, um dilúvio de água fértil, um dioivo de palavras que nos emprenhe de um outro futuro.
Imaxe: Informação, de Diogo Pimentão (fragmento)



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